O Pico, é o campeão das alturas portuguesas, humilha a Serra da Estrela com mais de 500 metros acima desta, tem todo o arquipélago de olhos postos em si, nos maus humores, quando se envolve, no seu em manto de neblina cerrada e vaporosa que não quere saber de ninguém. Mas de vez em quando lá concede em mostrar-se, descobrindo a ponta da montanha que logo se vê da Terceira, dizendo a população que dentro de três dias vai chover... Caprichos ou mistérios de senhor Rei das alturas.
assim, é que há-de ser para sempre, as tuas vontades são ordens... eu que o diga que já te tentei escalar e mandaste-me chuva e granizo num dilúvio de ma disposição... Vamos pois desta vez cá mais por baixo a descobrir-te calmamente nos teus domínios sem desafiar caractere tão sensível... E partindo da Madalena com um importante porto de acostar, já brindado pelos garridos grafitti dos veleiros e barcos de recreio que lhe vêem em demanda. A Madalena e uma vila agradável, com o seu moderno Hotel das Descobertas ao lado da Matriz novecentista, de torres aguçadas em competição com as duas aurocarias que se recatam por detrás. Distintas são algumas casas no debruço da muralha do antigo ancoradouro e porto de pesca, mas a casa de maior interesse de Madalena e a Câmara, seiscentista, com uma fabulosa pedra de armas em que se penduram na coroa das quinas, dois inesperados corvos. Pena é a pedra estar toda pintada de branco... Partindo pela esquerda na direcção de S. Roque do Pico, logo se começa a ver as vinhas bem cuidadas do verdelho «esta uva não tem sumo e só carne» (conforme comentava um tratador quando nos deu um cacho a provar) e onde alinham, indicadas por tabuletas, as diversas castas plantadas. Era dia de prova geral nas Bandeiras, povoação com uma igreja de certa imponência mas de modesta decoração na fachada, Nossa Senhora da Boa Nova, datada de 1860. Rumando para o Cachorro há procura do mar e vai-se notando com curiosidade que nesta ilha se encontra em abundancia o pinheiro bravo em desabono da criptomeria que, importada do Japão, é hoje em dia um dos ex-libris açorianos.
O Cachorro é terra antiga, bem assinalada pela sua capela decapitada, de pedra exibindo a vetusta data de 1687. De resto inúmeras casas na antracite da pedra vulcânica, dão-Ihe pergaminhos de beleza rupestre, coroada pelo intricado jogo dos rochedos cavernosos, vazados e em volutas de caprichos que ornam os diversos acessos ao apetite do mar.
Em Santa Luzia encontra-se a curiosa Igreja de S. Pedro, de torres assimétricas e de lá vê-se a linha branca do resves da água do aglomerado dos Arcos. E para lá do azul profundo a longa silhueta cinzenta da ilha de S. Jorge, Passando as pequenas povoações de Santana e S. Vicente, e em Santo Antonio a igreja surge importunada por uma casita que se lhe adoça sem cerimónia, a despeito da pequena casa do Espírito Santo que se arreda um pouco, envergonhada de tal desdém. Uma bela casa de dupla sacada de três janelas datada de 1850 dá-lhe uma presença fidalga. Vai-se vendo a passagem algumas quintas através de densa folhagem e junto ao mar, duas belas piscinas, perto do largo de Santo Antonio, fervilham de animação.
Chegando a S. Roque do Pico, com algumas casas de construção senhorial e o belo convento barroco de São Pedro de Alcântara de fachada extensa e bem implantada, enfrentando o mar.
S. Roque do Pico é o entreposto do Cais do Pico, bela enseada com extenso cais de acostagem, e onde existe a antiga fabrica de óleo de baleia. Subindo sempre, a estrada pende para o mar e em elevada postura dá para a admirar mais uma vez, dizendo-lhe adeus á bela vista da baia de S. Roque.
Dai vê-se na distancia a ponta do Mistério, que com o mistério da Prainha, o mistério da Silveira e o mistério de S. João são os mistérios mais em evidencia no Pico que não tem mistério nenhum, pois apenas são mantos de lava recente, de basalto olivinico, alguns dos quais estão na origem das fajãs ou de grandes tragédias. E já se chega á Prainha de Cima que antecede a Prainha de Baixo, com antigos e agradáveis edifícios e um local propicio a banhos de mar. A Igreja tem certa imponência com um frontão rematado a volutas entre as duas torres cônicas. Segue-se Santo Amaro, terra também crescida a beira-mar; e agora já se sobe de novo a estrada para ter vistas de arrepiar sobre os abismos tufados de verdura a perderem-se até ao mar em visões arrepiantes de beleza.
Chegando a Ribeirinha e logo depois á Piedade, com o belo Parque dos Serviços Florestais e do Desenvolvimento Agrário, é a Igreja de Nossa Senhora da Piedade, construída sobre as ruínas da anterior igreja destruída pelo tremor de terra de 1757 que chama a atenção. Uma boa cantaria de pedra basáltica reveste-lhe a fachada.
Está-se no extremo oriental da ilha que se vai dobrando, ao chegar a Fetais.
Já arribando a outra povoação portuária, Calheta do Nesquim, que foi porto importante na antiga pesca de baleia e onde em 1876 se procedeu ao primeiro «armamento» de caça ao cachalote.
A Igreja de S. Sebastião, erigida sobre a antiga seiscentista, de cúpulas caiadas em forma de cabaça, posta-se á beira-mar, parecendo abençoar a rampa que leva a água e de onde saiam as elegantes chalupas da pesca á baleia.
Ribeira Grande e Ribeira Seca despenhando-se pelas encostas sobranceiras ao mar, antecedem Santa Cruz das Ribeiras, cujas casas parecem também correr para o mar em abrigo da pequena baía e do ancoradouro, a acolher em abraço de carinhoso resguardo algumas traineiras de pesca. E logo por detrás de outro morro surge o porto das Lages do Pico, implantado em amena plataforma quase ao nível do mar, uma grande porção de água com duplo pontão para banho antecedendo o seu porto, que foi também importante centro baleeiro e ainda é um movimentado porto de pesca e de comercio. Casas de caracter antigo e velhos edifícios de larga fachada testemunham-lhe o passado de opulência e conferem-lhe o pendão de ter sido o primeiro local de povoamento.
A Igreja de Nossa Senhora da Conceição, na simetria habitual das suas torres sineiras, foi erguida na tradição da arquitectura açoriana setecentista, sobre capela mais antiga, mas mais exígua. Na orla da estrada, á direita, olhando o mar, implanta-se em boa presença de longa fachada o convento de S. Francisco.
Deixando a estrada circundante á costa para mergulhar no âmago da ilha, e chegar ao maior encontro desta jornada, a altiva montanha do Pico. Como se lhe fizessem proteção cerrada, as eternas ramas de neblina branca e cinzenta rodeiam-na em brios ciosos de esconderem a sua visão, como se fosse sacrilégio deparar com tal espetáculo de beleza, ou a vergonha de se mostrar despida a inibisse, vestindo-se de tal roupagem de céu velado, a cobrir-lhe a timidez do seu pudor. Vale sempre a pena esperar até o capricho do tempo descubra a montanha. E é então que o grande espetáculo acontece, a grande montanha do Pico deu uma ordem, resolveu ser generosa e mostrar-se ao intruso que ali estava á mercê, na submissão e resignada paciência de quantas horas fossem precisas. E pouco a pouco a nevoa foi-se atenuando, afastando-se para revelar finalmente a nudez daquele seio imenso, a transbordar de um corpete atapetado a musgão e urze. E é uma emoção sem paralelo que se sente. «Descobrindo Ilhas Descobertas» «o sol já tirou ao Pico o seu capuz emplumado e a descoberto ficaram, até a ponta que entra pelos arcanjos do céu, a pique as suas negras ravinas, as rugas e feridas de eterna velhice. Como inundação astral, polvilhada de oiro vivo, do Pico Alto a luz roxa vai.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
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